Um Refúgio no Paraíso - Capítulo Liberado

Atualizado: 29 de Dez de 2020



Capítulo 3


Paradise, E.U.A.


— Filho da puta — Wade rosnou quando a ligação caiu novamente na caixa postal. Jogando o celular no banco do passageiro, saltou para fora do carro e bateu a porta.


A brisa da noite o saudou com o frescor salgado vindo da marina de barcos. Fechando as mãos ao lado do corpo, encarou a fachada da academia, os tijolos vermelhos gastos pela maresia e as tubulações amostras davam ao complexo um aspecto antigo, mas as janelas blindadas refletindo as luzes dos postes eram o toque perfeito para dar credibilidade a um negócio que funcionava como fachada.


De dia, eles eram uma academia especializada em treinamento para lutadores do MMA, no final da tarde, as portas se fechavam e os treinadores se transformavam em mercenários profissionais prontos para entrarem em ação.


Wade varreu os olhos ao redor. A rua estava deserta, o que era algo bom caso precisasse descarregar o pente da sua arma na bunda do bastardo que estava ignorando suas ligações. Não precisava de uma plateia ouvindo os tiros e chamando a polícia.


Atravessando o estacionamento, pronto para destruir qualquer coisa que aparecesse em seu caminho, ele estava a um passo de chutar a porta quando a mesma se abriu em um rompante, quase acertando seu nariz.


— Ah, perfeito! Exatamente quem eu queria encontrar! — Donna Summer exclamou, os olhos escuros faiscando como bolas de fogo.


Wade piscou, surpreso com a aparição inesperada da recepcionista da academia.


— Boa noite para você também, Donna.


— Boa para quem? — ela rosnou, apontando para a porta que tinha quase estourado das dobradiças. — Ouça Wade, diga para aquele idiota que ele precisa de ajuda profissional, ajuda pesada. Tratamento de choque seria um bom começo, ou uma surra de bom senso para ver se o cérebro dele volta a funcionar como o de um ser humano racional.


— Hoje é um dia complicado, Donna.


Ela jogou as mãos para cima, as argolas de miçanga chacoalhando ao redor do rosto de traços impressionante, a pele cor de ébano brilhando sob o luar a cada movimento exasperado.


— Todos os dias são complicados quando se trata de Castellari!


Na verdade, todos os dias se tornaram um borrão nebuloso para Marco desde a morte da mulher que amava, colocando-o em um estado de autodestruição desenfreada que o fazia vagar pelo mundo como se estivesse morto também. Mas Donna não precisava saber disso. A última coisa que Marco precisava era de pessoas o olhando com pena.


— O que ele fez dessa vez? — Wade perguntou, preparando-se para o desabafo raivoso a qual já estava começando a se acostumar.


— Estava tentando ser prestativa, perguntando se ele precisava de mais alguma coisa antes de eu encerrar o expediente e ir para casa, onde meu marido está me esperando para um jantar, um vinho e algumas massagens felizes.


— Foram os seus planos para esta noite que o aborreceram?


Donna soltou uma risada seca.


— Claro que não. Castellari berrou comigo por causa do som dos meus passos! Ele me mandou desaparecer de uma vez e não o perturbar mais porque aparentemente, faço mais barulho do que uma orquestra sinfônica — ela avançou, a ponta de seus tamancos assassinos quase chutando os pés de Wade. — Eu não sei que tipo de coisas ele tem na cabeça, mas na próxima vez que me tratar assim, irei acertá-lo com um cabo de vassoura. Se eu quisesse interagir com animais selvagens, estaria trabalhando em um zoológico ou morando com a minha sogra!


— Entendo — Wade levou a mão à nuca, sentindo a tensão dos músculos. — Vou falar com ele e pedir para que seja mais...


— Educado? Civilizado? Adestrado?


— Sim — olhou para o chão em busca de ajuda, esperado que o asfalto lhe desse as respostas certas. Não deu. — Acho que esses termos se encaixam bem.


— Só posso desejar boa sorte — ela arrumou a alça da bolsa sobre o ombro. — É um verdadeiro desperdício de testosterona que um homem tão bonito seja um completo cretino.


Wade observou a mulher marchar até um fusca cor-de-rosa. O pequeno automóvel rugiu furiosamente e os pneus cantaram quando virou a esquina em toda velocidade.


O cheiro de borracha queimada o acompanhou até o interior do ginásio. No entanto, diferente da típica descarga de orgulho que percorria seu sistema quando adentrava no lugar que representava o seu maior recomeço, Wade tinha a impressão de que cada célula do seu corpo tivesse se transformado em pedra.


Após uma aposentadoria forçada dos SEAL’s, Marco lhe ofereceu o cargo como recrutador em sua empresa de segurança privada. Wade aceitou a oportunidade como um cão abandonado tentando se estabelecer em um novo lar, treinando cada homem perdido que batia na porta da academia em busca de uma segunda chance. Ele próprio tinha perdido o chão quando voltou para casa após sua dispensa da Marinha e encontrou a esposa transando com o vizinho.


Não que estivesse apaixonado por Jéssica. A união tinha sido mais um arranjo prático para combater a solidão do que uma relação baseada em sentimentos. Ele não acreditava na existência da mulher ideal que o amaria de todo o coração; principalmente quando sua aparência tendia a afastar as pessoas em vez de atraí-las.


Casamento era um negócio tão ruim quanto pisar em uma mina terrestre que o fizesse sair voando pelos ares, e Wade tinha conhecimento em ambos para saber julgar o pior. Felizmente, o acidente com a bomba lhe rendeu uma rede de cicatrizes no rosto já naturalmente assustador e um joelho de titânio.


Consequências perfeitamente adaptáveis.


Infelizmente, sua ex-esposa ainda lhe causava enxaquecas.


Wade percorreu à ampla área aberta em que ficavam os instrumentos aeróbicos e se guiou pelo som de chutes e socos vindos da parte dos fundos, onde estava o ringue e os sacos de areia para treinos mais pesados.


Foi onde encontrou o cretino que precisava ser adestrado.


Cruzando os braços, apoiou-se contra a parede em um canto e observou Marco seguir com uma sequência exaustiva de golpes que cortavam o ar como raios e acertavam o saco de areia de cem quilos que parecia balançar igual uma pena.


Um tanque de guerra poderia invadir a academia e mesmo assim Marco seguiria com sua rotina de exercícios. A mesma rotina que mantinha religiosamente todos os dias nos últimos três anos. Ele era o primeiro a chegar, trancando-se o dia inteiro no escritório e saindo somente à noite quanto todos os clientes já tivessem ido embora.


Porque era assim que ele vivia agora.


Recluso.

Furioso.

Explosivo.


Marco manteve-se focado, os pés dançando ao redor do saco a cada novo ataque, a faixa branca envolta das mãos começando a ficar manchada com pontilhados vermelhos que se intensificavam contra o tecido conforme os socos ficavam mais fortes, o impacto sendo tão poderoso que repercutia como um estrondo pelo ginásio.


— Está tentando quebrar os dedos? — Wade perguntou com uma falsa serenidade.


Marco desferiu um último soco antes de jogar a cabeça para traz, o peito subindo e descendo em fôlegos longos e pesados. Linhas de suor escorriam por toda a superfície de sua pele, revelando que estava a horas lutando contra o saco... ou com os demônios dentro de própria cabeça.


— O que está fazendo aqui?


— Você não atendeu as minhas ligações — Wade acusou.


— E claramente você não pegou a dica para me deixar em paz.


— Você não apareceu.


Os ombros de Marco enrijeceram, os músculos das costas ondulando em um movimento tenso quando se curvou para a mochila jogada em um banco e agarrou uma garrafa de água.


— Eu avisei que não iria.


— Era um jantar importante para o meu pai — Wade se desencostou da parede, dando um passo a frente com a postura de um urso preste a rugir. — Era algo importante para todos nós.


A risada de Marco soou tão sem vida e áspera quanto cascalho triturado.


— Não aja como se estivesse surpreso com a minha ausência. Não era uma opção ir até a casa de Arthur e ficar sentado em uma mesa, encarando a cadeira vazia em que sua irmã deveria estar sentada.


Katherine — a palavra saiu da boca de Wade como uma granada que rolou perigosamente entre eles, a tensão se tornando quase palpável no ar. — Dizer o nome dela não irá matá-lo. Já fazem três anos...


— Não foi o suficiente — Marco cortou. — Uma vida inteira ainda não seria o bastante para aceitar que ela não está mais aqui.


— Não foi só você que a perdeu.


— Não, eu não fui o único — os olhos verdes brilharam com um tormento tão profundo quanto um precipício escuro. — Mas sou o único que ainda acredita que ela esteja viva.


— Não comece com essa merda pra cima de mim — Wade passou a mão pela cabeça raspada em um gesto de pura frustração. — Você mesmo viu o estado do carro naquela noite, as ferragens estavam completamente contorcidas contra os rochedos. A maré estava alta, e mesmo que Kate tivesse resistido à queda do penhasco, não havia a mínima possibilidade de ela sobreviver a correnteza.


— Eu não espero que um idiota que acabou se casando com uma cadela consiga entender o que estou tentando dizer — Marco jogou a garrafa de água dentro da mochila e começou a retirar as bandagens das mãos. — Mas a sua irmã era a melhor coisa que eu tinha, Wade. Eu era um homem melhor quando ela estava ao meu lado, e isso foi desde que éramos crianças. Ela era a minha melhor amiga antes que eu percebesse que também era o amor da minha vida.


— Você tem razão — Wade afirmou, franzindo o cenho. As cicatrizes em seu rosto repuxaram em uma impressão dolorosa. — Eu não sei o que você está sentindo, não entendo que tipo de dor é essa que faz você agir como um bastardo toda vez que alguém tenta se aproximar.


— Recue, irmão — Marco avisou, o tom perigosamente baixo. — Eu não vou avisar de novo.


Ignorando a ameaça, Wade continuou:


Posso não saber o que é amar uma mulher da mesma forma que você amou Kate, mas sei como é perder pessoas que foram importantes para mim — com o punho fechado, bateu contra o próprio peito. — Minha dor não é igual a sua, mas ela existe.


Eles se enfrentaram a poucos passos de distância, duas forças da natureza prestes a se chocarem em um emaranhado brutal de dor, sangue e raiva. O silêncio permeou por alguns batimentos cardíacos, o som de cada pulsar e as respirações pesadas alimentando a energia nebulosa na atmosfera.


— Vá embora — Marco mandou.


Wade não recuou, o semblante se contorcendo na mesma expressão exausta de quando passava dias sem dormir no deserto, sabendo que fechar os olhos significava baixar a guarda para o inimigo atacar. E naquele momento, estava olhando para o melhor amigo como se estivesse diante de um adversário.


— Quando você vai acordar e perceber que a forma como está vivendo a sua vida é a última coisa que minha irmã iria querer?


Isso acendeu uma chama nos olhos de Marco. Virando-se, enfrentou Wade de frente antes de grunhir:


— Você não faz a mínima ideia do que ela iria querer para mim.


— Eu sei que Kate sempre quis a sua felicidade e ela detestaria olhar para você e ver esse idiota em quem se tornou. Você pode passar o resto da sua vida odiando o mundo, mas dê uma chance a si mesmo para recomeçar — as palavras seguintes soaram como o zumbido de uma navalha contra a jugular: — Você não está morto.


— O que sugere? — Marco questionou, a linha do maxilar tão dura que era um milagre não ter quebrado um molar. — O que está tentando me dizer aqui?


— Eu só quero parar de olhar para a sombra de um homem e começar a ver o meu melhor amigo tentando seguir em frente.


— E como faço isso? — Afastando a franja úmida do rosto, Marco avançou, a postura assemelhando-se a de um animal enjaulado. — Como sigo em frente quando ainda estou tentando descobrir como viver sem o meu coração? Sua irmã era a coisa mais importante da minha vida. Ela tornava o meu mundo bonito porque dava um significado a ele. Então, me diga porra, como posso seguir em frente e levar outra mulher para a cama, quando estou há três fodidos anos tentando encontrar um motivo para não meter uma bala na minha cabeça?


— Você consegue se ouvir? — Wade grunhiu. — Você precisa tirar a sua cabeça desse buraco e finalmente acordar. Eu e Sam perdemos nossa irmã, meu pai perdeu uma filha.


— Essa conversa acabou — Marco declarou, o sussurro da violência roçando contra seu ouvido como o canto de uma sereia. Um impulso primitivo ondulou por seu corpo, o desejo quase irresistível de sair destruindo tudo que estivesse ao alcance de suas mãos apenas pela satisfação de ver coisas bonitas e concretas se tornarem nada mais do que destroços e poeira.


— Você nunca quer conversar sobre a morte dela.


— Katherine não está morta! — o rugido veio do fundo do seu âmago e Marco sentiu cada letra do nome da noiva se transformar em garras que abriram um caminho até sua alma. — Nunca acharam o corpo dela.


— Claro que nunca encontraram o corpo, tudo o que restou de Kate foi comido pelos peixes! — Wade rebateu em um berro excruciante, o peso da realidade de cada palavra rasgando sua garganta como cacos de vidros.


Consciente de que tinha ultrapassado todos os limites, ele e se preparou para receber o ataque quando, em um piscar de olhos, contemplou o desabamento das barreiras que mantinham os problemas de controle de raiva de Marco reprimidos.


As mudanças foram tão nítidas e claras quanto o nascer do Sol. As mãos de Marco se fecharam em punhos, as feridas nos nódulos causadas pelo treino se expandindo com o repuxar da pele. O olhar escureceu como esmeraldas envoltas por nuvens de tempestade e cada osso de seu corpo enrijeceu.


O golpe veio na forma de um borrão no ar. Com metade de um batimento cardíaco, o punho de Marco encontrou o queixo de Wade em um gancho que preencheu sua boca com o gosto ferroso de sangue assim que o osso em sua mandíbula estalou. Dando alguns passos para trás, Wade deixou que seu próprio temperamento aflorasse em um trovejar.


Por mais que estivessem no mesmo nível de habilidades de lutas corpo a corpo, sabia que onde era robusto e forte como um urso das montanhas, Marco tinha a destreza e técnica de um verdadeiro predador nascido no berço da máfia. Entrar em confronto com um homem que já mostrara ser capaz de desabar cinco oponentes de uma vez poderia ser visto como estupidez, mas Wade não ganhou o apelido de Triturador nos SEAL’s por acaso.


Marco se moveu para um novo golpe, mas Wade estava preparado daquela vez. Em um jogar de ombros, ele se esquivou do novo soco de Marco e desferiu seu próprio punho contra as costelas do amigo. Marco se curvou com a força do impacto, dando abertura para o ruivo erguer o braço e acertá-lo no maxilar. Sem perder o compasso, ele ergueu a perna, acertando Wade na dobra do joelho.


Wade cambaleou, perdendo um tempo precioso para reestabelecer o equilíbrio. A mão de Marco agarrou sua camiseta, torcendo o tecido entre os dedos antes de jogá-lo contra a parede, o impacto reverberando em um estrondo de carne contra concreto.


— Você acha que quero continuar vivendo desse jeito? — Marco vociferou. — Ao mesmo tempo em que perco a minha sanidade, também sinto o coração de Kate batendo dentro de mim, ouço a voz dela chamando o meu nome, eu a vejo todas as noites na porra dos meus sonhos — as veias em seu pescoço incharam, parecendo vigas sob a pele. — As autoridades nunca nos deram uma prova concreta sobre o que de fato aconteceu naquela noite. Direção embriagada? Sua irmã era tão cautelosa dirigindo que até mesmo uma criança em um triciclo a ultrapassava.


— Foi um acidente.


Foda-se se acreditar nisso te faz dormir em paz, irmão. Eu não vou aceitar a morte da minha mulher até ter certeza do que realmente aconteceu, e para o seu bem, é melhor não ficar no meu caminho — um tipo de desespero distorcido cobria sua voz. — Se Kate estiver viva, eu vou trazê-la para casa.


A atmosfera crepitava ao redor na forma de uma descarga de energia mortal. Wade agarrou o punho de Marco, sentindo a força dos dedos dele quase atravessando seu peito.


Em um puxão firme, soltou-se do agarre e o empurrou para longe.


— Faça como quiser — praticamente cuspiu, limpando o sangue da boca com as costas da mão. — Mas não conte comigo para ir te tirar da cadeia no meio da noite depois de ter se metido em uma briga de bar ou identificar o seu corpo quando te encontrarem morto em algum beco.


— Diga a Arthur que irei vê-lo amanhã.


— Não vou fazer nada, estou cheio de sempre ter que limpar as suas merdas — Wade rosnou, virando-se para a saída. — Kate está morta, e não me importo se você decidir se afogar nesse seu estado de negação, mas não se atreva a desrespeitar a minha família novamente. Ligue para o meu pai, é o mínimo que você pode fazer depois de decepcioná-lo por não aparecer no jantar de aniversário da minha irmã — e foi embora.


S I N O P S E

Katherine O’Connell precisava morrer...

Forjar a própria morte nunca esteve em seus planos, mas ela estava ciente dos riscos que correria quando aceitou tornar-se uma agente infiltrada no submundo da máfia, coletando informações em missões clandestinas financiadas por uma agência secreta.

Para salvar sua família e seu noivo de serem usados como alvos de seus inimigos, Kate precisou tecer uma rede de mentiras que apenas serviu como uma corda para enforcá-la. Agora, ela estava disposta a mergulhar mais fundo no mercado do tráfico humano e fazer com que seus sacríficos valessem a pena.

E de alguma forma, tentaria encontrar um milagre que a levasse de volta para casa e para os braços do homem que amava.

Marco Castellari precisava encontrar uma razão para viver...

Ele era um destemido ex-SEAL que controlava sua empresa de segurança privada com a mesma precisão com que matava. Poucas coisas eram capazes de perturbá-lo, mas a morte de sua noiva fez com que o feroz soldado se transformasse em um homem sem alma.

Determinado em descobrir a verdade por trás da morte da única mulher que amou, Marco irá até o fim para desvendar todos os segredos que rondam o misterioso acidente. Ele só não esperava que suas buscas o levassem às dolorosas lembranças do passado e que retomar seus contatos com a máfia italiana poderia lhe custar a coisa mais importante de sua vida.


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